A vírgula e o seu juízo

A vírgula, ao contrário do que se ensina em colégios afoitos, não é respiração. Respirar é coisa dos pulmões; pontuar é coisa da mente. A vírgula é raciocínio, não fôlego. E, por isso mesmo, é um campo de batalha em que muitos textos tombam.

Toda vez que um professor diz que a vírgula serve “para marcar uma pausa”, um gramático morre um pouco. A vírgula não pausa o ar. Ela separa as ideias. É o guarda de trânsito da oração: manda parar o sujeito, deixa passar o verbo, orienta o complemento. E, como todo guarda atento, aplica multas severas a quem ignora a sinalização.

Veja: 

Os alunos, que estudavam muito, passaram. Observe que as vírgulas isolam uma oração explicativa. Nesse caso, todos os alunos estudaram. Logo, todos passaram. Agora, retire-as: O aluno que estudava muito passou. Pronto, mudou o sentido: agora só passou aquele aluno estudioso, e não os outros. Duas vírgulas a menos, duas ideias diferentes. A vírgula não respira, pensa. Entenda isso, meu aluno.

O problema é que, em tempos de correria, ninguém mais quer pensar a frase. Querem que a língua se comporte como um aplicativo: rápida, intuitiva, dispensando análise. Porém, a vírgula exige reflexão. É o último bastião da lógica numa época em que se escreve por impulso e se lê sem atenção.

Adriano da Gama Kury (Gramático) costumava dizer, e com razão, que “o uso da vírgula é o retrato do pensamento”. Quem pensa aos solavancos, pontua aos trancos. Quem raciocina com ordem, pontua com elegância.

A vírgula, afinal, é uma questão de sintaxe e juízo. Juízo, porque requer discernimento; sintaxe, porque sua função é revelar a estrutura invisível da frase. Por isso, ela nunca deveria ser posta “onde se respira”, mas onde o sentido e a sintaxe pedem.

E se, ao fim deste texto, alguém ainda disser que coloca vírgula quando sente falta de ar, aconselho-lhe duas coisas: procure um médico e um gramático.

Cheiro de Gê!

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