Muitos há que olham para o estudo da Língua Portuguesa como um emaranhado de regras áridas, algo cabuloso e insosso, que se deve evitar. Engano grande, e desses que fazem a gente perder o rumo da boa escrita e da fala precisa! O domínio do nosso idioma, meu aluno, não está na decoreba insensata, mas na compreensão da sua lógica interna, naquilo que os doutos chamam de Morfologia. Afinal, o que é a palavra senão um pequeno organismo vivo, com suas partes a cumprir funções bem definidas? Se quisermos manejar com segurança o vocabulário, se pretendemos ser entendidos sem tropeços, imperioso se faz que conheçamos a estrutura de cada termo que empregamos.
A desconstrução do vocábulo
A morfologia, que nos parece um nome sisudo, é na verdade a chave mestra para abrir o sentido das palavras. Não basta conhecer a palavra inteira; o que é fundamental é saber como ela se fez, de onde veio e o que cada pedacinho dela significa.
O Radical, a alma da palavra, é o núcleo duro, a porção que carrega o sentido essencial. Reconhecer o radical permite-nos agrupar a família de palavras. Pensemos, por exemplo, no radical terra. Deste se desdobram terreno, aterrar, desterro, terrário. Ora, quem domina o radical, domina de uma só vez um arsenal de vocábulos!
Os Afixos são os acessórios transformadores. Estes pequenos apêndices (prefixos e sufixos) são de uma importância capital para a expansão e a modificação dos sentidos. Por exemplo, um sufixo como -mente transforma qualquer adjetivo em advérbio (de triste para tristemente), indicando modo. Já um prefixo como in- (ou i-, ou im-) tem o poder da negação (infeliz, ilegal, imoral).
Compreender este mecanismo evita o erro e a confusão. O estudioso da morfologia tem a facilidade de decifrar as palavras novas, sem a necessidade constante de recorrer ao dicionário, pois ele compreende a fórmula da sua formação.
A força da flexão no dia a dia
Deixe-me dizer uma verdade a você: estar a par da morfologia é, ademais, a única garantia para o uso correto da flexão, tanto a nominal quanto a verbal. É nela que residem as famosas desinências, que são o traço de união entre a estrutura e a sintaxe. Entenda: no nome, a desinência de número nos guia na construção do plural, evitando as barbaridades que se ouvem por aí. Quem entende a estrutura do substantivo sabe que o plural de pão (pães) e o de mão (mãos) têm lógicas morfológicas distintas, mas ambas são perfeitamente sistematizáveis. No verbo, a desinência verbal de tempo e modo nos informa se a ação é passada, presente ou futura; se é real ou hipotética. Saber identificá-la é o que nos permite a concordância e a clareza temporal.
Desse modo, meu querido aluno, o conhecimento da morfologia não é um capricho de filólogos, mas o alicerce sobre o qual se ergue a capacidade de bem falar e bem escrever. É a morfologia que confere a segurança de construir frases corretas, de expandir o vocabulário com lógica e de desvendar o sentido das palavras com rapidez.
Não temamos, pois, a gramática, mas procuremos nela a lógica apaziguadora que nos conduz ao uso preciso e elegante da Língua Portuguesa. O caminho para a excelência passa, inevitavelmente, pelo estudo da forma da palavra. Não esqueça isso.
Um cheiro de Gê!




