Os sons e os sinais: uma conversa sobre a melodia da nossa língua

Costuma-se dizer, com um pingo de orgulho, que o português é uma língua de escrita quase fonética. Ora, que bela ilusão! Aquele que se aventura a crer que para cada som há uma letra e para cada letra um só som, está prestes a cair numa das muitas e charmosas armadilhas que o nosso idioma nos prepara.

Pensemos no som sibilante que encontramos em “sapo”. Simples, não? Pois o mesmo som, esse danado, se disfarça com outras roupagens em “cidade”, “caçula”, “próximo”, “descer” e até no luxuoso dígrafo de “exceção”. A escrita, meu caro aluno, não é um retrato fiel da fala; é, antes, uma convenção cheia de história, de manias e de uma lógica muito própria, que por vezes nos parece ilógica.

E se as letras nos pregam peças, o que dizer da pronúncia? A alma de uma palavra reside na sua sílaba tônica, aquela que proferimos com mais vigor, com mais intenção. É o coração que a faz pulsar. No entanto, quantas vezes não cometemos as famosas “silabadas”, verdadeiros atentados à melodia do vocábulo? Quanta gente por aí insiste em falar “rúbrica” em vez da correta rubrica? Ou transforma um “pudico” em “púdico”? São pequenos deslizes, é verdade, mas que arranham a beleza da nossa prosódia. Falar bem não é luxo de eruditos; é um convite a apreciar a cadência natural da nossa língua.

É justamente para nos socorrer nesse bailado de sílabas que existem os acentos gráficos. Longe de serem meros enfeites ou, como pensam alguns, instrumentos de tortura escolar, o acento agudo e o circunflexo são como um maestro discreto a reger a orquestra da nossa leitura. São eles os sinais de trânsito da pronúncia.

Imagine a palavra “sabia”. Sem o devido contexto, ela pode ser a forma do verbo saber no pretérito imperfeito (eu sabia), a esposa do sabiá (sábia) ou até mesmo o próprio pássaro (sabiá). Quem nos salva dessa confusão? O acento, esse amigo da clareza! Um simples tracinho (´) ou um chapéu (^) , como normalmente se referem a eles – nos aponta a direção, indicando sem erro qual vogal devemos enfatizar e se o seu timbre é aberto ou fechado.

As regras de acentuação, que a tantos assustam, possuem uma lógica interna fascinante. Por que todas as proparoxítonas são acentuadas? Ora, porque são as mais raras, as exceções à regra natural da língua, que tende a oxítonas e paroxítonas. O acento, nesse caso, funciona como um holofote, dizendo: “Atenção, leitor! A força desta palavra está aqui, um pouco antes do esperado!”.

Portanto, não encare a fonética e a acentuação como um campo minado de regras áridas. Pense nelas como a musicalidade inerente ao nosso idioma. Compreender a relação entre o som que emitimos e o sinal que grafamos é mais do que um exercício de gramática; é um ato de apreço pela clareza, pela expressividade e pela rica melodia da língua portuguesa. E, convenhamos, falar e escrever com mais consciência e um pouquinho mais de graça é um prazer que todos nós merecemos. 

Um abraço de Gê! 

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